segunda-feira, 30 de março de 2026

MEU VELÓRIO


Eu gostaria de ter um velório simples, rápido e com reza constante. Simples porque tenho descoberto sua beleza em si mesma. E não está na praticidade, nem no pouco trabalho que pode gerar. Mas sim, porque, revela uma essência natural, pura e despretensiosa. Que fosse rápido pra que não houvesse tempo das pessoas perceberem que o que tenho não é o meu valor, que estou falida, que na verdade não produzi, nem conquistei muita coisa. Imagino exéquias precedidas de Ave-Marias infinitas pra que Deus tenha piedade da minha alma diante do tesouro que multipliquei tão pouco. Mas assistindo ao meu velório agora vejo que não é assim que acontece. Tudo não passa de um show onde a morta já está esquecida. 
As pessoas chegam ao pé do caixão numa reverência simbólica, tias e primos choram e tentam consolar meu marido, minha mãe e em algum momentos meus filhos quando permitem que estejam por perto. Meu marido diz diversas frases de efeito de superação ou em minha homenagem através de orações públicas ou durante as condolências. Também optou por um upgrade do plano funerário, melhor caixão, melhores flores, melhor tratamento. E eu nem ligo pra onde vão me enterrar. Mas é claro, ele não sabe que flores eu preferiria ou quais seriam as minhas favoritas e o melhor tratamento funerário é para evitar comentários sobre problemas com o defunto: mal cheiro, decomposição acelerada ou acusarem de falta de dinheiro, desleixo e, etc... etc... Há choro sincero... pelas merdas que fez e que me afetaram e nos destruíram antes que eu tivesse a chance de sabê-las a tempo e me unir a ele para tentarmos nos reconstruir. Àquela altura nada tinha mais solução e sim ele pensa que quem deveria ter partido era ele... "direto pro inferno" ele diz, do nada, à alguém porque fala pelos cotovelos... fala sem pensar... sem querer dizer... mas querendo muito falar. E graças a ele meu velório tem pompa, rituais e ornamentos sem fim, um verdadeiro show.
 Há coroas de flores espalhadas por todo recinto de diversos grupos. Minha mãe e minha irmã estão chorando muito durante todo velório. As horas vão passando, o padre está atrasado e meu filho mais velho começa a ter uma crise emocional, começa a gritar e chorar chamando por mim. Minha sogra toma ele nos braços como ela fazia sempre que ele chorava quando era bebê como se ele fosse dela e todo conforto do mundo estivesse no colo dela. Logo ela entende que não está, por que eu sou a mãe! Levaram ele pra fora e eu escuto o choro diminuir... está cansando! Após 45 minutos chorando e esperneando sem parar com gente falando junto sem conseguir acalmá-lo, ele não resiste e choraminga baixinho quase dormindo. Minha bebê não entende,, ela sorri pra todos daquele jeito encantador que só ela tem. Mas a fome e o sono vão se juntando e percebo que ela já começando a sentir minha falta, eu sabia que isso aconteceria. Ela começa a se desvencilhar do colo das pessoas, não quer colo, não ficar no chão, não quer comer... Ela quer o colo da mãe! Também chora até cansar e pegar no sono.
Olhando em volta vejo muitas pessoas que não conheço, percebo serem amigos da minha mãe, outros da minha sogra e sogro, amigas das minhas cunhadas, conhecidos meus e do meu marido... a maioria eu não conheço e nem faço questão que estejam aqui. Outras eu não esperava que estivessem, como o velório se estendeu ao limite souberam a tempo e vieram relembrando as antigas, em geral pessoas da igreja. Amigos meu não tem. Alguns souberam da minha morte, mas não acharam importante fazer presença. Afinal, nossos laços se romperam já há tanto tempo por mágoas não confessadas e destinos separados.
Escutando as conversas ouço quando explanam da minha casa, do meu marido, dos meus filhos... do meu primeiro carro- que comprei zero-, que fui a primeira da família a conquistar uma graduação- trabalha na área e ganha bem-, que economizei muito e consegui comprar uma casa-e não um apartamento como a maioria-... "E o marido como vai ficar com essa perna desse jeito?" "Quem vai ajudar a cuidar das crianças?" "O mais velho já não regulava bem, como ficará agora?" "E a bebê, vai crescer sem mãe." "Sem dúvida essa mulher era muito forte será difícil pra eles sem ela."
Lentamente os comentários vão mudando e se tornando maldosos, acusadores. O que antes era uma fofoca esquecida passa a projetar o futuro "soube que o marido já esteve internado por uso de drogas", "verdade!? "nossa agora vai se afundar", "e gastar todas as economias da família". As opiniões abafadas circulam livremente "as crianças vão ficar largadas com a mãe dele, certeza", "capaz que se mudem pra lá, não tem um neto que já mora lá?, "mas que marido ela foi arrumar!", "e o menino fez um escândalo mais cedo.", "onde ele vai faz um, né", "vão terminar de ficar desajustadas essas crianças", "a mãe era rígida demais, o pai só grita com as crianças", "esse cara um falso, paga de bonzinho, mas é nóia e mulherengo", "jura?", "as irmãs me contaram, traia a mulher", "nossa, todo puritano, moço de igreja, mas é uma cobra." "Não acredito que ela sabia e aceitava isso, q fraca!" "sem opinião" "reparou que não tem nenhum amigo dela aqui?" "muito fechadona, séria", "segurava tudo pra si", "por isso morreu tão jovem"... 
O padre chegou... essas pessoas nem sabem que não sou mais assim, que eu nunca nem fui metade dessas coisas, que eu mudei tanto nos últimos anos e que nada é tão simples, perfeito ou imperfeito como parece. A exéquias se inicia com um canto maravilhoso... nunca me incomodei com o que as pessoas pensavam de mim e ainda não me importa, mas me fere saber que não transpareci quem eu sou, que ficou em evidencia apenas meus pertences, falsas conquistas e as coisas não ditas. Onde eu estava? O padre proclama o evangelho, mas eu não estou ouvindo, só consigo pensar na parábola dos talentos e em como eu deixei o meu por tanto tempo guardado. Não o tornei digno de ser admirado no lugar que mais importava... meu coração. O padre diz alguma coisa sobre viver e eu percebo agora que deixei de viver em algum momento e nem me dei conta. Eu acordei, num pesadelo completo disposta a me reinventar e já sou muita coisa do que quero ser por dentro e justo agora quando tudo começa a fazer parte das minhas atitudes, do meu cotidiano, simples, prático com entrega e amor eu me vou. 
Hora do translado, hora de ir pra cova... tem gente chegando agora "puxa, pensa numa menina de bom coração! A primeira vista não parecia, mas se ela dissesse que te ajudaria... podia contar que ela ia dar um jeito", "é verdade, ela nunca julgou ninguém por incapaz", "me ajudou a ver mais no potencial dos meus filhos", "acreditou que eu poderia antes de mim mesmo" "sempre muito sábia nas suas colocações", "da hora demais!", "estava sempre procurando o lado bom coisas e das pessoas", "fazendo piadas nos momentos mais loucos, querendo ver todo mundo sorrir", "não gostava de brigas, nem ver ninguém brigando", "inteligente pra caramba!", "parecia brava, mas era muito divertida!" Meus filhos choram enquanto meu corpo desce, meu marido fica em silêncio tentando inutilmente conter as lágrimas, minha mãe e minha irmã chegam bem perto e choram também. A família do meu marido vem se aproximando e inicia uma sucessão de choro e lágrimas mais ou menos contidas. E muita gente começa a chorar também e não sei se é por mim ou porque outros choram. Os que mais importam estão aqui e se um pedacinho do meu eu de verdade ficou em alguém eu já posso ir...

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